Actions of Transfer: Women’s Performance in the Americas – A experiência brasileira

Mulher a vida inteira – politizar a vida privada e poetizar a luta (paper ATUADORAS)

Novembro 27, 2008 · Deixe um comentário

Somos um coletivo de mulheres (artistas e pensadoras) que se reuniu, no final de 2006, na cidade de São Paulo, para refletir artística e poeticamente sobre as questões de gênero com foco na condição feminina.
Criamos um espetáculo de teatro, mulher a vida inteira, com foco na violência contra a mulher, para ser apresentado exclusivamente para grupos femininos em seus espaços de organização. O texto da peça foi construído coletivamente pelas ATUADORAS, partindo da pergunta “o que é ser mulher?”. Depoimentos das atrizes e de outras mulheres por elas entrevistadas somaram-se a matérias de jornais, leitura de livros e discussões, formando uma dramaturgia que percorre a vida da mulher desde o nascimento até a velhice, tratando de assuntos variados, interpretados por quatro atrizes que dialogam com uma Dj.

Tivemos a oportunidade de dialogar com uma variedade muito grande de mulheres, em idades, condições sociais, níveis de estudo, etnias e profissões diferentes, sensibilizando esses públicos para o desejo de gozarem plenamente de seus direitos humanos.

Durante este seminário fizemos uma de nossas performances, o Cochicho, que consiste em dizermos delicadamente dados expressivos da violência contra a mulher ao pé do ouvido. Ao concebermos o espetáculo mulher a vida inteira o que nos movia era a verdade que este dados de violência contra a mulher atestam. Percebemos durante as entrevistas e depoimentos que colhemos no processo de criação do espetáculo que o que era horror nas estatísticas se transformava em realidade com sangue, dores, afetos, desejos, medos, submissões, resistências e, principalmente, solidão.

Uma vergonha escondida, uma dor não compartilhada, algo inominável que era vivido como particular, ou como natural. Como destino. Percebemos nos depoimentos a dificuldade de se compartilhar estas questões, a intimidade à qual fica destinada a vida da mulher. Eram falas sobre gravidez indesejada, precariedade dos direitos no trabalho, abuso físico e psicológico, desconhecimento e vergonha do próprio corpo sentido como inadequado, rivalidade com outras mulheres, abandonos, sonhos ditos impossíveis, a feminilidade vivida como uma sina. E também vozes de superação, de organização, emancipatórias e longe do discurso da vítima.
Transformamos estas histórias, e as nossas próprias, em texto teatral. Ao levarmos estas vidas para o palco, o que era vivido como particular ganha com as mulheres da platéia a esfera do público. A presença exclusiva de mulheres na equipe e na platéia garante um ambiente entre iguais, em um tempo de reconhecimento, de cumplicidade, gerando a percepção de que é possível construirmos algo juntas. E, principalmente, de que podemos e devemos nos responsabilizar pela nossa história.

Percebemos o quão produtiva foi a escolha de partirmos de uma pergunta, “o que é ser mulher?”, pois o questionamento, a desnaturalização e a incerteza foram estratégias férteis e criativas para pensarmos a nossa identidade. No espetáculo, pudemos discutir cenicamente a lógica que mantém e fixa as posições de legitimidade e ilegitimidade do ser mulher construído pela sociedade e por cada uma de nós: percebemos como são dialéticas, múltiplas e fluidas as construções da nossa identidade.

O teatro, neste caso, não promove uma mobilização coletiva, de agitação. E sim, propicia uma aproximação entre mulheres que vivem histórias semelhantes, que cotidianamente têm seus direitos humanos violados sem se darem conta, ou que reproduzem os valores da nossa sociedade machista e patriarcal. Mulher a vida inteira gera uma percepção e uma reflexão de que existe algo fora do lugar: que os valores como estão postos nos oprimem, nos machucam.

Nosso grupo, no ano de 2009, atuará em 2 frentes de trabalho. A primeira consiste na apresentação da peça para jovens da cidade de São de Paulo. Percebemos que as moças recebem a peça com grande alegria e se sentem estimuladas a pensar a própria trajetória de vida de um modo diferente de suas mães e avós.

Outro foco de trabalho são as mulheres presas. Certamente, as encarceradas são o nosso público mais diretamente vítima das violações de direitos humanos e com questões agravadas pelo fato de serem mulheres. A maioria das mulheres presas no Brasil está ali por tráfico de drogas e foi abandonada pelo companheiro, marido assim que passou para dentro das grades. Essa situação é oposta à dos homens encarcerados, que nunca deixam de receber visitas de suas companheiras (pelo contrário: é comum que alguns que entram solteiros na cadeia, saiam casados). Além disso, uma das maiores preocupações das mulheres presas é saber o paradeiro de seus filhos e filhas, pois não costumam ter advogados, a comunicação com suas famílias é precária e, assim, muitas passam meses sem saber quem está cuidando de suas crianças.

Pretendemos trabalhar oficinas de teatro com estes dois públicos partindo do espetáculo mulher a vida inteira como estímulo de criação e organização do depoimento pessoal de forma cênica.

Acreditamos que a prática teatral, com foco no compartilhamento de depoimentos, pode estimular na re-elaboração da identidade confiscada seja pelo cárcere, seja pela mídia, seja pelo mito do amor e, quem sabe, possibilitar a algumas mulheres a abertura de uma fenda na vida cotidiana e provocar a lembrança de que é necessário politizar a vida privada.

Sabemos que a luta das mulheres é uma batalha não contra os homens, mas contra uma forma de organização capitalista que garante a alguns homens a posse da terra, das mulheres e dos seus frutos. Que para darmos um basta na violência contra mulheres temos que lutar pela mudança e construção de um outro mundo. O teatro não tem as respostas, mas acredita na dúvida.

E como dizem as nossas companheiras bolivianas Mujeres Creando: a nossa vingança é ser feliz!

Categorias: Atuadoras

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